Identidade híbrida, diáspora portuguesa na Bélgica e o que significa crescer entre duas línguas, duas culturas e duas formas de estar no mundo.
A pergunta errada: entre dois mundos ou em território próprio?
Há uma pergunta que nos fazem desde que nos lembramos de ser perguntados sobre nós próprios.
Às vezes vem em português, com o sotaque carregado de quem nunca saiu: mas tu és portuguesa ou és belga? Às vezes vem em francês, na sala de aula, numa festa, num formulário que só tem um campo para a nacionalidade. E às vezes — a versão mais difícil — vem de dentro, à noite, quando não há ninguém para culpar pela pergunta.
Durante muito tempo, a resposta honesta era: não sei. E não saber parecia uma falha. Como se a identidade fosse uma equação com solução certa, e nós tivéssemos chegado ao exame sem estudar.
Hoje penso que a pergunta é que estava errada.
Crescer em tradução: o que significa habitar dois sistemas de coordenadas
Crescer numa família de emigrantes portugueses na Bélgica é crescer em tradução permanente. Não apenas entre línguas — isso é a parte visível, a que as pessoas notam e acham graça — mas entre formas de estar no mundo que raramente se explicam uma à outra. A maneira portuguesa de receber pessoas em casa. A maneira belga de gerir o silêncio. O que se diz num jantar de família e o que nunca se diz. O que é normal ter sentimentos sobre e o que se supõe que não vale a pena sentir.
Quem cresceu neste espaço intermédio sabe fazer uma coisa que nenhum dos dois lados ensina: ler o que não está a ser dito. Perceber que por detrás de uma pergunta há um pressuposto, que por detrás de um costume há uma história, que por detrás de uma diferença há uma lógica que faz sentido — só que noutro sistema de coordenadas.
Isso não é ser metade de duas coisas. É ser completamente uma terceira.
A metáfora das salas: porque o corredor não é um exílio
A narrativa do entre dois mundos é compreensível. Tem a sua poesia, até. Mas tem um problema: coloca-nos permanentemente no corredor, à espera de entrar numa das salas. E nenhuma das salas nos quer completamente — Portugal acha que somos demasiado belgas, a Bélgica acha que somos demasiado portugueses — por isso ficamos no corredor, a fazer de conta que é uma escolha estar ali.
Não é. É um exílio que ninguém declarou.
O que me parece mais honesto — e mais útil — é abandonar a metáfora das salas. Não há duas salas. Há um espaço que nós próprios habitamos e que não existia antes de nós o habitarmos. Um espaço com as suas próprias regras, a sua própria gramática afectiva, a sua própria forma de estar no mundo que não é nem portuguesa nem belga mas que bebe das duas sem se dissolver em nenhuma.
É um lugar sem nome oficial. Mas é real. E somos muitos a viver nele.
A Matinés Pensantes e o lugar sem nome: programar para quem pergunta
A Matinés Pensantes surgiu, em parte, para esse lugar sem nome.
Não apenas para a diáspora da primeira geração — os que partiram e guardam Portugal como uma fotografia na carteira. Mas também para quem cresceu aqui, em Bruxelas ou em Liège ou em Antuérpia, a ouvir histórias de um país que conhece pela memória dos outros mais do que pela sua própria. Para quem fala português com sotaque e tem vergonha disso em Portugal e orgulho disso na Bélgica. Para quem foi a Portugal nas férias de verão durante vinte anos e ainda assim se sente turista quando lá está.

Esses também são nossos. A sua relação com Portugal é diferente da dos pais — mais interrogativa, menos nostálgica, mais escolhida. E é precisamente por isso que nos interessa. Porque uma relação que se escolhe todos os dias tem uma intensidade que a herança passiva raramente consegue igualar.
Escolher Portugal todos os dias: a relação activa com a identidade
Não precisamos de escolher entre ser portugueses e ser belgas. Essa escolha nunca foi nossa para fazer.
O que podemos escolher — e esta sim é uma escolha real, que se renova regularmente — é o que fazemos com o lugar estranho e fértil que ocupamos. Se o habitamos com vergonha ou com curiosidade. Se nos desculpamos por não sermos completamente de nenhum lado, ou se percebemos que não ser completamente de nenhum lado nos dá acesso a ângulos que quem está fixo num único lugar raramente consegue ver.
Uma relação que se escolhe todos os dias tem uma intensidade que a herança passiva raramente consegue igualar.
A segunda geração não está perdida entre dois mundos.
Está exactamente onde precisa de estar para ver os dois com clareza.
A Matinés Pensantes é uma associação cultural sem fins lucrativos, fundada em Bruxelas em 2012. A nossa programação é feita para toda a comunidade lusófona — da primeira à segunda geração, e a todos os que têm curiosidade por Portugal. Em 2026, lançamos a nossa campanha de associados fundadores. Saiba mais em matinespensantes.org
