MARO e Saudade Saudade: quando a música portuguesa chegou à Eurovisão sem pedir desculpa

Como a cantora portuguesa MARO, com Saudade Saudade co-escrita com Billie Eilish, redefiniu o que a música portuguesa pode ser no mundo — e o que isso diz sobre uma geração de artistas que não pede licença.

Turim, Maio de 2022.

Numa arena com capacidade para doze mil pessoas, transmitida em simultâneo para mais de duzentos milhões de espectadores em todo o mundo, uma jovem portuguesa sobe ao palco do Festival Eurovisão da Canção. Não traz consigo uma produção espectacular de luzes e pirotecnia. Não traz uma música desenhada para vencer algoritmos nem um conceito visual construído para viralizar nas redes sociais. Traz cinco vozes, uma guitarra, e uma canção sobre saudade — cantada em português, numa palavra que o próprio título repete duas vezes, como quem insiste num ponto que sabe que vai ter de explicar.

MARO não ganhou a Eurovisão. Ficou em nono lugar — um resultado respeitável, historicamente acima da média portuguesa na competição. Mas o que aconteceu a seguir ao concurso diz mais sobre o seu significado do que qualquer posição na tabela de classificações.

Saudade Saudade continuou a circular. Continuou a ser descoberta. Continuou a chegar a ouvidos que não tinham visto a Eurovisão, que não acompanham a música portuguesa, que não sabem onde fica Portugal num mapa — e que mesmo assim ficaram.

Há canções que têm razão de ser. Esta é uma delas.

Antes da Eurovisão: MARO nos Serões Pensantes à Lareira da Matinés Pensantes

Antes da Eurovisão, antes dos artigos e das entrevistas e da visibilidade que a competição inevitavelmente traz, MARO esteve numa sala em Bruxelas.

Foi nos Serões Pensantes à Lareira — a série de conversas e actuações que a Matinés Pensantes transmitiu no seu canal YouTube durante a pandemia, quando os eventos presenciais eram impossíveis e a comunidade precisava, talvez mais do que nunca, de um espaço de encontro. Era 2020 ou 2021. O mundo estava fechado. E MARO era uma artista portuguesa promissora, com uma voz única e uma forma de escrever canções que cruzava o pop, o folk e a tradição portuguesa de maneiras que não eram óbvias nem calculadas.

Não havia arena. Havia uma câmara, uma ligação de vídeo, e uma comunidade de portugueses em Bruxelas que nessa tarde escolheu estar ali.

Dois anos depois, essa mesma artista co-escrevia uma canção com Billie Eilish — uma das vozes mais reconhecidas da música popular mundial — e cantava-a em português para duzentos milhões de pessoas.

Não foi sorte. Foi a mesma coisa a acontecer em escalas diferentes.

Saudade como estratégia: a intraduzibilidade como vantagem cultural

Saudade Saudade foi co-escrita por MARO e Billie Eilish. Este detalhe — que é frequentemente mencionado mas raramente explorado — merece atenção.

O que significa que uma das compositoras mais influentes da sua geração, americana, anglófona, com acesso a qualquer vocabulário musical e poético que quisesse, tenha escolhido colaborar numa canção cujo título é uma palavra portuguesa intraduzível — repetida duas vezes, sem concessão, sem tradução no refrão?

Significa, pelo menos, que a saudade não precisou de se disfarçar para ser compreendida. Que há emoções humanas suficientemente universais para sobreviver à barreira da língua — não apesar de serem nomeadas numa língua específica, mas precisamente por isso. A especificidade da palavra portuguesa deu à emoção uma precisão que o inglês, com todo o seu alcance global, não conseguia oferecer da mesma forma.

A especificidade da palavra portuguesa deu à emoção uma precisão que o inglês, com todo o seu alcance global, não conseguia oferecer.

Há aqui uma lição que vai muito além da música. Durante décadas, a cultura portuguesa — na música, no cinema, na literatura — foi pressionada, subtilmente ou de forma explícita, a internacionalizar-se. A suavizar as arestas locais, a traduzir o que era demasiado específico, a tornar-se legível para um mercado imaginado que não falava português e não conhecia a saudade. A mensagem implícita era: para chegar ao mundo, é preciso deixar de ser demasiado português.

MARO fez exactamente o contrário. E o mundo ficou à mesma.

Pedro Abrunhosa, Mafalda Veiga, MARO: a linhagem dos que não se disfarçam

MARO não é um caso isolado. É um sinal dentro de um padrão mais amplo que está a redefinir a forma como a cultura portuguesa se relaciona com o mundo.

Pedro Abrunhosa, que esteve na série Portugal em NOZ e cuja obra a Matinés Pensantes acompanha há anos, construiu uma carreira de décadas sem nunca ter tentado ser outra coisa que não fosse profundamente, inconfundivelmente português — e tem hoje um público fiel que o acompanha de Lisboa ao Porto, de Paris a Bruxelas. Mafalda Veiga, que participou na 4ª Matiné Pensante e nos Serões à Lareira, faz música que não segue tendências porque nunca precisou de as seguir: a sua voz e a sua forma de escrever são suficientemente singulares para criar o seu próprio espaço. Maria Alice leva o fado a palcos internacionais sem o domesticar para consumo turístico. Vitorino Silva canta o Alentejo para quem o quiser ouvir, sem manual de instruções.

O que une estas figuras — diferentes em género, em geração, em público — é uma recusa tranquila de se tornarem versões simplificadas de si próprias para facilitar a vida a quem as descobre. São completamente o que são. E encontraram, cada uma à sua maneira, o público que reconhece exactamente isso.

É uma geração — ou talvez uma linhagem, porque atravessa gerações — que descobriu que a especificidade não é um obstáculo à universalidade. É o caminho para ela.

Eurovisão e Portugal: como uma competição kitsch pode ser uma janela séria

A Eurovisão tem uma reputação complexa nos círculos da cultura dita séria. É simultaneamente o maior festival de música popular da Europa e um espectáculo que a crítica especializada raramente consegue levar a sério. É kitsch e é genuíno. É calculado e é emocionalmente devastador. É as duas coisas ao mesmo tempo, e é precisamente essa tensão que lhe dá vida.

O que a participação de MARO revelou é que a Eurovisão pode ser, para um país pequeno com uma língua que o mundo não fala, uma oportunidade rara: um palco onde o que habitualmente é considerado uma limitação — a língua, o tamanho, a especificidade cultural — pode tornar-se uma vantagem. Porque num contexto de competição entre países, o que se destaca não é o que se parece com tudo o resto. É o que é genuinamente diferente.

Saudade Saudade era diferente. E duzentos milhões de pessoas — ou pelo menos uma fracção significativa delas — reconheceram isso.

MARO em Bruxelas: o convite que a Matinés Pensantes quer fazer

MARO tem crescente projecção internacional. A colaboração com Billie Eilish abriu portas que levam tempo a percorrer, e a carreira que se está a construir tem a marca das que duram: assenta numa voz inconfundível, numa forma de escrever canções que não imita ninguém, e numa relação com a identidade portuguesa que é afectiva sem ser folclórica.

Do lado da Matinés Pensantes, há uma vontade de continuar a acompanhar esta trajectória — e de criar, quando o momento for certo, um espaço de encontro presencial em Bruxelas onde esta música possa ser ouvida pela comunidade que já a conhece e pelo público francófono que a está a descobrir.

Porque há algo que os Serões à Lareira de 2020 e 2021 mostraram claramente: MARO numa sala — mesmo que essa sala seja virtual, mesmo que o mundo esteja fechado — é uma experiência que fica.

Duzentos milhões de pessoas já sabem disso.

A comunidade portuguesa em Bruxelas soube primeiro.


MARO participou nos Serões Pensantes à Lareira, a série de conversas e actuações transmitida pela Matinés Pensantes durante a pandemia (2020/2021). A Matinés Pensantes é uma associação cultural sem fins lucrativos, fundada em Bruxelas em 2012, dedicada à promoção da cultura portuguesa na diáspora europeia. Em 2026, lançamos a nossa campanha de associados fundadores. Saiba mais em matinespensantes.org

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