Por Ana Faria
Sou organizadora de casa por temperamento. Para mim, arrumar não é uma tarefa: é uma forma de pensar. Foi numa dessas tardes de gavetas abertas, daquelas em que se decide o que fica e o que sai, que apareceu o CD. Discreto, com a inscrição EU2007.PT impressa no canto. Quase o pus na pilha do “rever depois”. Em vez disso, sentei-me e ouvi-o do princípio ao fim.
Para quem não se lembra: EU2007.PT foi a marca da terceira Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia — entre Julho e Dezembro de 2007, o semestre que culminou com a assinatura em Lisboa do Tratado que ainda hoje rege a União. A acompanhar essa cerimónia toda, Portugal preparou também um cartão de visita musical: vinte faixas oferecidas às delegações dos outros vinte e seis países parceiros e que diziam, em forma de canções, quem somos.
Olhei para o alinhamento, e a primeira coisa que me bateu foi a coragem da curadoria. Há ali a Sétima Legião a abrir com “Mar de Outubro”. Há os Madredeus, há o Carlos do Carmo de “Lisboa Menina e Moça”, há a guitarra portuguesa de Ricardo Rocha. Mas há também os Boss AC, os Da Weasel, os Cool Hipnoise, os Expensive Soul. Quem fez aquela escolha não quis apresentar Portugal como um postal de fado e azulejos. Quis dizer à Europa que somos também o país que faz rap, electrónica e hip-hop — e que isso, igualmente, é cultura portuguesa.
Houve três faixas que me pararam.
A primeira foi o “Deixa-me Rir” do Jorge Palma. O Jorge é um velho amigo dos meus tempos de Braga, dos serões a que então chamávamos tertúlias — encontros que não tinham hora para acabar, em que a música, a conversa e a noite se entrelaçavam até ao limite do possível. Basta-me ouvi-lo agora para ter uma cidade inteira a regressar: as ruas, as risadas, o piano sempre a meio de qualquer ideia.
A segunda foi os “Cúmplices” da Mafalda Veiga. Acredito naquela letra como se acredita em poucas. E acredito também na pessoa que a canta: a Mafalda esteve connosco na 4ª Matiné Pensante, em 2018, no “Portugal no Feminino”, e regressou nos Serões à Lareira durante a pandemia. Há vozes que ficam connosco.
E depois veio a Mariza — “Oh Gente da Minha Terra”. Não tenho defesa contra esta canção. Sou emigrante há mais anos do que sei contar, vivo em Bruxelas por escolha e com gosto, mas quando a Mariza canta aquilo, choro. Choro com o orgulho de saber de onde venho, e choro com a certeza de que essa pertença não se dilui por estar do outro lado.
Pensei muito, depois de ouvir tudo, no caminho que aquele CD fez. Foi pensado para sair de Portugal com uma missão diplomática. Foi entregue a delegações estrangeiras, levado para gabinetes em Bruxelas, em Berlim, em Varsóvia. E voltou — pela mão de uma portuguesa que mora em Bruxelas e que o encontrou numa gaveta dezanove anos depois. Há um círculo que se fecha aí, mesmo que ninguém o tivesse desenhado.
É também por isto que existem as Matinés Pensantes. Para guardar estes momentos. Para os partilhar. Para lembrar — a nós e ao mundo — que a cultura portuguesa não é um museu. É uma coisa viva, que respira, que evolui, e que às vezes está à nossa espera no fundo de uma gaveta, paciente, à espera que tenhamos tempo de a ouvir.
Playlist
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