Eduardo Souto de Moura: do Pritzker ao Praemium Imperiale e o que a arquitectura portuguesa tem a dizer

Prémio Pritzker 2011 e Praemium Imperiale 2025 — como a trajectória de Eduardo Souto de Moura define uma ideia de permanência na arquitectura portuguesa contemporânea.

Existe uma fotografia mental que qualquer pessoa guarda da primeira vez que vê um edifício de Eduardo Souto de Moura.

Não é necessariamente um momento de espanto. É algo mais subtil e, por isso, mais duradouro: a sensação de que aquele edifício sempre esteve ali. De que a paisagem o esperava. De que a arquitectura não chegou para transformar o lugar mas para completar o que o lugar já estava, silenciosamente, a tentar dizer.

Esta qualidade — a de fazer coisas que parecem inevitáveis — é provavelmente a mais difícil de alcançar em qualquer arte. E é, também, a que o mundo mais demora a reconhecer. Porque o inevitável não grita. Não se anuncia. Simplesmente está lá, e um dia alguém repara que não consegue imaginar o lugar sem ele.

Em 2011, o Prémio Pritzker. Em 2025, o Praemium Imperiale. Duas vezes o mundo foi até Eduardo Souto de Moura. E ele continuou, as duas vezes, a fazer exactamente o que sempre fez.

Pritzker e Praemium Imperiale: dois reconhecimentos, uma mesma obra

O Pritzker é o Nobel da arquitectura — toda a gente sabe isso, ou pelo menos sabe que é o prémio mais alto que um arquitecto pode receber. O Praemium Imperiale é menos conhecido fora dos círculos especializados, mas não é menos significativo: atribuído pela Japan Art Association desde 1989, distingue artistas em cinco disciplinas — pintura, escultura, arquitectura, música e teatro/cinema — com base numa obra de vida. É, por natureza, um prémio retrospectivo. Não celebra um projecto. Celebra uma trajectória.

Receber os dois — com catorze anos de intervalo — é uma distinção que pouquíssimos arquitectos alguma vez alcançaram. E o que torna a trajectória de Souto de Moura particularmente interessante não é a acumulação de galardões em si, mas o que essa acumulação revela: que o mundo foi capaz de reconhecer, em momentos diferentes, dimensões diferentes da mesma obra.

O Pritzker reconheceu a excelência técnica e a coerência formal. O Praemium Imperiale reconheceu algo mais difuso e mais profundo — a contribuição de uma vida inteira para a forma como pensamos o espaço, o tempo e a memória.

São dois prémios para a mesma pergunta: o que é que a arquitectura deve ao lugar onde existe?

Porto e a escola de arquitectura portuguesa: Siza, Souto de Moura e a tradição do rigor

Souto de Moura é do Porto. Não de uma forma biográfica apenas — nasceu ali, estudou ali, tem o atelier ali — mas de uma forma que atravessa a obra. Há qualquer coisa na contenção, no rigor, na recusa do ornamento gratuito que ressoa com uma certa tradição nortenha de fazer as coisas para durar e não para impressionar.

Formou-se com Álvaro Siza Vieira, o outro grande arquitecto português do século XX, também do Porto, também Pritzker. A relação entre os dois é um dos capítulos mais ricos da arquitectura portuguesa contemporânea — não porque sejam iguais, mas precisamente porque não são. Siza é mais lírico, mais orgânico, mais disposto a deixar que o processo de projecto tome direcções inesperadas. Souto de Moura é mais geométrico, mais mineral, mais interessado na tensão entre a massa construída e a paisagem que a envolve.

Mas partilham algo essencial: a convicção de que a arquitectura não existe no vácuo. Que cada edifício é uma resposta a um lugar específico, a um momento histórico específico, a uma necessidade humana específica. E que a grandeza de um edifício se mede, em última instância, pela qualidade dessa resposta.

O Estádio Municipal de Braga é talvez o exemplo mais dramático desta convicção na obra de Souto de Moura. Encaixado numa pedreira, com as bancadas a crescerem directamente da rocha, o edifício não tenta dominar a paisagem — integra-se nela com uma violência contida que é, paradoxalmente, uma forma de respeito. A pedreira estava ali antes do estádio. Continuará a estar depois. O edifício é um momento nessa história muito mais longa.

Permanência e resistência: porque os edifícios de Souto de Moura não envelhecem

Há uma palavra que aparece repetidamente quando se fala da obra de Souto de Moura: permanência. Os seus edifícios parecem feitos para durar — não apenas em termos materiais, mas em termos de pertinência. Não envelhecem porque nunca foram propriamente contemporâneos no sentido efémero da palavra: nunca seguiram uma moda, nunca responderam a um momento passageiro do gosto arquitectónico internacional.

Esta posição — que pode parecer conservadora mas é na verdade profundamente radical — tem implicações que vão muito além da arquitectura.

Vivemos num momento em que a velocidade é valorizada como virtude em quase todos os campos. A cultura produz-se depressa, consome-se depressa, esquece-se depressa. O que não circula nos primeiros dias perde relevância. O que não é imediatamente legível perde audiência. E neste contexto, alguém que trabalha devagar, que demora anos a desenvolver um projecto, que recusa simplificar o que é complexo — esse alguém é, à sua maneira, um acto de resistência.

Souto de Moura nunca declarou resistir a nada. Simplesmente continuou a fazer o que sabia fazer, com a atenção que sempre dedicou ao ofício. Mas o resultado — uma obra que o tempo não consegue tornar irrelevante — é, em si mesmo, uma posição sobre o que a cultura deve ser.

Souto de Moura nunca declarou resistir a nada. Simplesmente continuou a fazer o que sabia fazer. O resultado foi uma obra que o tempo não consegue tornar irrelevante.

É a mesma posição que encontrámos, em campos diferentes, noutras figuras que passaram pela Matinés Pensantes ao longo dos anos. Em Rui Paula, que cozinha a partir do território sem concessões ao efémero. Em Pedro Abrunhosa, que compõe à margem das tendências e tem um público fiel que o acompanha há décadas. Em Mafalda Veiga, que construiu uma obra inconfundível sem nunca ter perseguido a visibilidade fácil.

Há uma linhagem — não uma escola, não um movimento organizado, mas uma linhagem — de criadores portugueses que partilham esta convicção: que fazer bem, devagar, a partir de um lugar, é suficiente. Que o mundo, a seu tempo, vem.

Arquitectura portuguesa na Bélgica

Há um detalhe da obra de Souto de Moura que tem uma ressonância particular para quem lê este blogue a partir de Bruxelas ou da Bélgica.

O Centro de Congressos de Bruges — uma das obras do arquitecto no território belga — é um exemplo do que torna o seu trabalho reconhecível em qualquer contexto geográfico: a capacidade de intervir num tecido histórico denso sem o dominar nem se submeter a ele. Bruges é uma cidade que o tempo tratou com uma generosidade rara, preservando uma coerência urbana medieval que poucas cidades europeias ainda possuem. Construir ali é, por definição, um acto de enorme responsabilidade.

O que Souto de Moura fez foi o que sempre faz: ouvir o lugar antes de lhe responder. O resultado é um edifício contemporâneo que dialoga com a escala e o ritmo da cidade histórica sem fingir que pertence a outro século.

É um dos muitos sinais de que a arquitectura portuguesa não é um fenómeno local. É uma contribuição para a forma como a Europa pensa e constrói os seus espaços. E é, para quem vive entre dois países e duas culturas, um lembrete de que Portugal está presente em muitos lugares onde talvez não esperássemos encontrá-lo.

Na 5ª Matiné Pensante: Souto de Moura, o Porto e a ética do ofício

Em 2023, na 5ª Matiné Pensante, Eduardo Souto de Moura falou sobre o Porto com a contenção característica de quem não precisa de convencer ninguém. Não fez declarações grandiosas. Não explicou a sua obra. Respondeu a perguntas com a precisão de quem passou a vida a pensar cada palavra antes de a dizer — e cada pedra antes de a colocar.

O que ficou não foi nenhuma frase em particular. Foi a impressão, difícil de articular mas impossível de ignorar, de estar na presença de alguém para quem o rigor não é um método mas uma ética. Uma forma de estar no mundo e no ofício que não admite atalhos, não aceita o suficientemente bom quando o melhor ainda é possível.

O Praemium Imperiale de 2025 reconheceu uma vida inteira de trabalho construído sobre essa ética. E nós, que tivemos o privilégio de ouvir esse trabalho ser descrito numa tarde de Outubro no Porto, sabemos que o prémio é justo.

Não porque Souto de Moura precisasse de mais um galardão.

Mas porque alguns trabalhos merecem ser vistos. E os prémios, quando são dados com seriedade, são uma das formas que o mundo tem de garantir que isso acontece.


Eduardo Souto de Moura participou na 5ª Matiné Pensante, realizada no Porto em 2023 sob o tema “O Porto a Pensar o Porto”. A Matinés Pensantes é uma associação cultural sem fins lucrativos, fundada em Bruxelas em 2012, dedicada à promoção da cultura portuguesa na diáspora europeia. Em 2026, lançamos a nossa campanha de associados fundadores. Saiba mais em matinespensantes.org

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